segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

POBREZA NA TERRA DO OURO BRANCO!

Antigo armazém onde era comercializado o algodão

A partir da década de 50, do século XIX, a vila do Ingá passou a ter um expressivo crescimento populacional. Em 1847, a sua população livre era de 2,481 habitantes, já em 1851 atinge o número de 8.316 pessoas (3), Esse crescimento da população livre parece estar relacionado também aos fluxos migratórios provenientes do sertão devido à seca. Muita gente afluiu para Ingá devido à sua proximidade com a Vila Nova da Rainha (Campina Grande). O efeito desse fluxo foi não só um aumento
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(3) CL Irineu Ferreira Pinto - Em 1847 a 1º Comarca totalizava 57.322 homens livres, assim distribuídos:
- Parabyba-----------------------------------------------------------20.099
- Vila de Alhandra---------------------------------------------------- 3.627
- Vila de Mamanguape -----------------------------------------------12.142
-Vila do Pilar--------------------- -----------------------------------18.973
- Vila do Ingá --------------------------------------------------------2.481
Em 1851, havia 693 escravos na Vila do Ingá. Não foram localizados dados relativos aos anos anteriores.
“A Vila é pouco povoada e de importância muito secundária (...). A Igreja do Rosário é de aspecto triste, os altares acham-se cobertos com panos insignificantes e velhos, e parecem antes altares de oratório de menino, do que mesmo de uma igreja onde existem as imagens do Redentor e dos mártires (..,). Segundo nos informam é isto devido antes a falta de meios do que a ausência de fervor religioso (...)”. (Seixas, 1985, p. 67)
Apesar da pobreza e das dificuldades, a luta pela sobrevivência era constante, Um dos mais sérios problemas da Vila do Ingá sempre havia sido o abastecimento d’água, uma vez que a água das cacimbas do Rio Ingá por ter uma grande quantidade de sal não era própria para beber. Isso obrigava os habitantes do lugar a ir buscá-la na Serra Verde, a mais de uma légua (6 km) de distância e que era a fonte mais próxima. Mesmo assim, na época de estiagem, a fonte secava e era preciso buscar a água na Serra de Bodopitá, a uma distância de três léguas. Em 1848, havia sido construído, próximo à Vila, o açude Zabelê, no Governo do Presidente em 1860, ele se encontrava nas seguintes condições:
“(...) não se presta a seu mister, pois no mesmo entram os animais, o que concorre para que exale a água pútrido miasma e esteja sempre revolvida. O açude não corresponde ao nome, é um poço ordinário”. (Seixas, 1985, p. 67)
Assim, no início da década de sessenta do século XIX, a população da Vila do Ingá vivia momentos difíceis, em meio à pobreza e à morte. No entanto, a Vila,, nessa época, retrata bem o quadro da ocupação do Agreste da Paraíba, resultado da associação de três atividades econômicas - a agricultura de subsistência, a pecuária e o algodão. Esse último se apresentará, no limiar da nova década, como a possibilidade de abertura de novos horizontes. A agricultura de subsistência funcionará como retentora da mão-de-obra para as demais, uma vez que provia seu sustento nos períodos de crise, impedindo, ou pelo menos atenuando, a migração para outras áreas. A história do desenvolvimento da cultura algodoeira no Ingá é um retrato do que aconteceu em todo o Agreste Paraibano. Por que ocorreu a sua introdução nesse espaço? O que aconteceu com as grandes fazendas que criavam gado e com os homens pobres e livres que plantavam seus roçados? Por que, apesar do ouro branco, esses homens ficaram cada vez mais pobres e menos livres? Qual o significado do algodão para o Agreste? Durante o período colonial, o algodão, que já era conhecido pelos nativos antes da chegada dos europeus, foi utilizado basicamente para o consumo interno, na confecção de peças do vestuário dos escravos e também de sacaria para os engenhos de açúcar. A partir da segunda metade do século XVIII, o algodão viria a produzir profundas modificações na organização do espaço nordestino, em especial no Sertão e no Agreste. O crescimento na cultura algodoeira no Brasil relacionava-se diretamente à grande necessidade de matéria-prima provocada pelo desenvolvimento da indústria têxtil inglesa (com a Revolução Industrial) e pela situação internacional favorável, devido ao bloqueio da produção dos Estados Unidos que se encontrava, então, em guerra pela independência contra a própria Inglaterra. Entre 1780 e 1830, o algodão tornou-se, no Brasil, uma cultura de exportação, transformando as áreas mais distantes em vastos algodoais, sendo o Nordeste o maior centro produtor e exportador. Em termos de Agreste, a lavoura algodoeira trouxe importantes modificações tanto na sua organização agrária quanto nas relações de produção e no quadro urbano regional. A estrutura fundiária agrestina caracterizava-se pela combinação «o latifúndio (originalmente ligado à apropriação da terra para a criação de gado)com o minifúndio (originado da divisão dos latifúndios por heranças sucessivas ou pelo povoamento dessa região em épocas de depressão da cultura açucareira na Zona da Mata). A cultura do algodão podia ser realizada tanto em grandes como cm pequenas propriedades., O Agreste era perfeito! Nas grandes propriedades, nessa época, o gado dividia as terras com os trabalhadores livres (arrendatários ou parceiros) porque o roçado que estes plantavam, depois de colhido, lhes servia de pasto (tanto a rama do algodão quanto a palha do milho). Já nas pequenas propriedades, a atividade principal era a cultura de alimentos - fava, milho e feijão - mas também se plantava algodão porque esse produto, ao ser vendido, é que permitia a compra das sementes para a produção dos outros. Aliás, depois que o algodão começou a ser plantado em larga escala, as coisas iriam mudar muito tanto para os grandes proprietários quanto para os agricultores. A terra já não iria ser a mesma, os homens também não! Na época em que a pecuária e as cultura de subsistência eram as atividades econômicas principais, as grandes fazendas possuíam moradores que além de plantar algodão e alimentos também fiscalizavam a boiada. No entanto, o cuidado com o gado era, de fato, obrigação dos trabalhadores permanentes e dos vaqueiros que não recebiam salários em forma de dinheiro mas“1/4 da produçãoda fazenda ou seja, de cada 4 bezerros que nasciam uni lhe pertencia e os outros 3 eram do proprietário”. (Andrade, 1986, p 122) Já o trabalho escravo parece ter sido pouco utilizado tanto na pecuária quanto, mais tarde, na lavoura comercial de algodão. Essa tinha um período de crescimento curto e era mais interessante para o grande proprietário empregar trabalhadores livres por breve período do que manter um grande número de escravos que iriam passar a maior parte do tempo sem ocupação lucrativa. O gado, por sua vez, era destinado ao abastecimento interno. A população pobre sobrevivia, ora com o comércio de gado na feira da Vila Nova da Rainha (Campina Grande hoje), ora cuidando da boiada dos senhores de engenho da Zona da Mata que ia passar o inverno no Agreste, ora alugando a sua força-de-trabalho para levar os rebanhos para o Recife. As coisas começaram a mudar com a explosão da produção algodoeira. A principal transformação aconteceu nas relações entre os proprietários de terras e seus agregados. Os trabalhadores permanentes praticamente desapareceram. Ao mesmo tempo foi se firmando o sistema de moradia e, em especial, o de parceria, em que a produção passa a ser dividida com o proprietário como forma de pagamento pelo uso da terra. Era o dono da terra quem, além de ficar com parte da produção dos agricultores, determinava o quê, quanto e como eles poderiam plantar (aliás, ainda hoje isso é muito comum no Nordeste). Dessa forma, o homem pobre dito livre, ficava cada vez mais sob o domínio dos latifúndios sua exploração ficava cada vez mais intensa. Da mesma forma que a cana-de-açúcar, a cultura algodoeira, por ser uma atividade voltada para a exportação, sofria mudanças conforme as alterações do preço do produto no mercado internacional. Assim, durante o período da Guerra da Secessão Norte-Americana (1861-1865) que provocou a interrupção da produção algodoeira dos LUA, a Inglaterra se viu obrigada a recorrer a outras fontes de abastecimento da matéria-prima, entre elas, o Brasil. Foi assim que as exportações paraibanas, procedentes na maior parte do Agreste, que já havia aumentado de 70.560 arrobas em 1841 para 187.941 em 1849, continuaram a crescer até fins da década de 60 do século XIX. Durante esse período, enquanto o algodão era valorizado e o seu preço estava em alta, a exploração dos agricultores era menor, porque os lucros dos proprietários eram maiores. Porém, com o fim do “boom”, em 1870, e a queda do preço do algodão provocada pelo retorno dos EUA ao mercado (depois da Guerra da Secessão) e pela entrada em cena da produção egípcia e internamente da produção paulista em condições mais competitivas, os homens pobres e livres tornaram-se presas fáceis nas mãos dos grandes proprietários. Esses aumentaram as áreas de plantação para ter condições de vender grandes volumes no Porto de Recife. Era uma tentativa desesperada de manter os altos lucros com base no aumento da produção. Só que o aumento das áreas dos algodoais significava a diminuição das terras para o cultivo de subsistência. A pressão sobre os parceiros tornou-se cada vez maior e esses se viam obrigados a aceitar a “parceira de condição” como a última alternativa para escapar ao crescente exército de mendigos, criminosos e bandidos que proliferavam na Província. Foi às custas desses trabalhadores livres que se tornou possível o desenvolvimento do algodão no Agreste, que assistiu também ao surgimento de inúmeras vilas. E, em cada vila, foram-se instalando os pequenos vapores para beneficiamento do algodão. Assim, junto com uma acentuação da exploração do homem pobre e livre, o algodão provocou o crescimento dos núcleos urbanos, do comércio e da população agrestina. Muita gente (homens livres e escravos libertos) da Zona da Mata correu para lá! Muita gente correu para o Ingá! O agreste se constitui, nesse período, num amplo espaço que vai sendo aos poucos integrado ao mercado capitalista, mas que ainda permanece subocupado e subexplorado. Resultado disso é a dificuldade de comunicação existente entre seus povoados e vilas e a capital da Província, bem como a extrema miséria da sua população. Uma população de homens livres, mas antes de qualquer coisa, homens pobres: Sua liberdade é, portanto, limitada e vigiada pela sua pobreza. - Não é por acaso que esses homens, segregados da cana e da seca, fugitivos da exploração dos senhores de engenho da Zona da Mata e dos coronéis do gado e comerciantes de algodão do sertão constituíram uma população que poderia ser comparada a um barril de pólvora, em estado latente de explosão. Basta uma fagulha no pavio, basta qualquer provocação, ou seja, toda essa situação do homem pobre e livre vai sucumbir em revoltas armadas: “Ronco da Abelha e Quebra Quilos”.

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